[[BIOGRAFIA NÃO-AUTORIZADA]]
Depois de um primeiro contato em um grupo de discussão de pop art sacra, os três integrantes da Claustrofonia perceberam certas afinidades culinárias e marcaram de se conhecer em um McDonalds e participar da tradicional comemoração do dia do Soldado Polonês.
Pelos trajes e maneiras de falar, logo todos perceberam a influência latente do bolero em suas vidas. A organização da festa distribuia alguns instrumentos típicos para o acompanhamento da banda oficial da comemoração e, munidos de apito, agogô e charango, juntaram-se num cantinho e ficaram por horas cantando temas de Motorhëad, Pantera e Slayer. Foi quando um produtor famoso se encantou com o entrosamento e a sonoridade pesada dos rapazes, e logo percebeu o sucesso que estaria em suas mãos.
Após uma negociação que durou alguns minutos, a agenda de ensaios para a semana já estava montada. Assinaram o contrato, mesmo sabendo que o produtor teria algumas ressalvas: teriam que vestir terno engomado, cabelo cortado, instrumentos clássicos e brilhantes e todo o repertório da banda seria modificado para uma apresentação inicial no famoso Baile da Saudade de Capivari.
No início, eles torceram o nariz, achando que isso ia descaracterizar o conceito inicial da banda, mas logo perceberam que seria financeiramente interessante e resolveram dar continuidade aos ensaios, que no começo foram realizados no quartinho da central de ar condicionado do shopping onde um tio do Rodrigo tinha uma quitanda.
Porém, logo no segundo ensaio, algo inesperado aconteceu. O produtor, a caminho, cai da ponte da Av. Bandeirantes sobre os trilhos do trem da CPTM, na Marginal Pinheiros, em São Paulo. O choque contra o primeiro vagão foi mais rápido do que a chance que ele e sua amante poderiam ter de escapar. Após poucos dias em coma, decide deixar o trânsito caótico da cidade e se isolar em um mosteiro de frades beneditinos no interior do Mato Grosso, onde reside até hoje ensinando mutilados a levar uma vida mais digna.
Não conseguindo honrar o compromisso com o Baile da Saudade, uma vez que somente o produtor sabia chegar em Capivari, a banda se viu obrigada a levantar fundos para cobrir a dívida referente à devolução de mais de 30 mil ingressos vendidos antecipadamente.
A banda precisava de um plano. Ou de um milagre.
Foi ali, sentado na beirada do jardim da Praça da Sé, junto com outros socialmente excluídos, que os astros se alinharam. Sem instrumentos, realizavam bravamente seus ensaios acapella, batendo palmas de vez em quando, pra esquentar, sem a mínima esperança.
Foi quando eles perceberam que as pessoas ao redor assimilavam facilmente suas lindas canções, e em menos de meia hora todo o centro de São Paulo contemplava aquela sonoridade. A cena que até hoje é marco em suas memórias era ver aquela platéia linda cantando juntos, em uma só voz, os primeiros repentes da banda.
Percebendo o potencial dos jovens, e contando com seu tino comercial, a associação dos camelôs do centro resolveu financiar a gravação de um CD, em troca de um contrato de exclusividade. Era o comércio informal dando o troco, e causando uma revolução sem precedentes na história da indústria fonográfica. Foi a primeira vez na história que os camelôs, donos de um fonograma de qualidade, tiveram que combater a pirataria de gravadoras multinacionais, que tentavam lançar irregularmente o CD da banda em outros países.
O resto da história todos nós conhecemos.